Tuesday, November 05, 2002

(Minha carne precisa de carne,
Meus olhos precisam de olhos,
Minha alma precisa de alma)

O sofá está vazio, como um câncer.
Uma nuvem antiabortiva, parida aos céus,
sua graça branca abraça e descansa
no abismo do ventre de que desceu,
refestelada: a face patibular
tormenta olhos seletivos.

(Minha carne precisa de
Meus olhos precisos, de que
Precisa a alma precisa de alma)

Na sala, a luz condensa as sombras,
como quem condensa o amor: um limite sem corpo.
Ou um corpo sem o limite da dor.
Verdade é que é fria
(e o amor não passa de dívida
sem credor, dívida que se paga, sem amor).

(Minha carne precisa
Meus olhos precisos
Minha alma precisa)

Rápido sair e vou como todo homem deve:
a mão nos bolsos, os olhos nas pálpebras.
Nada desconformado.
Meu café, baba de travesseiro.
Amanhecido. Seca antes que o dia se acabe.

(Minha carne
Meus olhos
Minha alma)

Uma calça me veste a libido.
Ninguém reclama.
Os dedos já não mais são várzeas
em que se fustigavam escravos fugidos.
Em que Felipe II morreu catolicamente.
Em que um pedaço de vidro lembrou
a sensibilidade dos vidros, meio a um largo de sangue.

(Minha
Meus
Minha)

Sem dedos, caminho.
Sem sorriso, faço caretas.
Porque ainda tantas esquinas?
- olhos estrábicos,
que, do mesmo
nariz, olham a todos os lados.
Contingência de desencontros.
A certeza de que posso errar -
embora
haja um lugar e não outro:
Este? Esse? Aquele?
Vocênos.
Para que portas?
Trazem pés,
mãos que vêm de corpos dados,
o gato sem rabo da Sílvia,
poeiras e até pedaço de papéis amassados.
Muros chineses
e preconceitos americanos,
brasileiros. Tanto faz.
Que abolissem a todas as esquinas.
As portas. E as janelas. Que não trazem caos,
que não trazem céus, que não trazem tranças. Que não
cantam serestas,
que não compõem trovadores, que não
conquistam suicídios, que não matam traições.


Volto pra casa. Descerro
as janelas e circula o ar,
porque até o hálito divino
apodrece rápido. E
só outro ar pode.
Só um escovão
pode. Só uma gravata
bem amarrada pode. Só um
músculo no lugar pode.

Só um poema como este pode.


Como todo homem

Vou como todo homem deve ir:
com a mão nos bolsos e os olhos nas pálpebras.
Nada desconformado.
Meu café é a baba no travesseiro.
Amanhecido. Seca antes que o dia se acabe.

Uma calça me vestiu a libido.
Ninguém reclamou.
Os dedos já não mais são várzeas
em que se fustigavam escravos fugidos.
Em que Felipe II morreu catolicamente.
Em que um pedaço de vidro lembrou
a sensibilidade dos vidros,
meio a um largo de sangue coxo.

Sem dedos, caminho.
Nunca sorrio. Faço caretas.
Porque ainda há esquinas?
Elas são a contingência do desencontro.
A certeza de que posso errar.
Embora
haja um lugar e não outro:
Este. Esse. Aquele.
Vocênos.
Para que portas?
Trazem pés,
mãos que vêm de corpos dados,
um gato sem rabo,
poeiras e até pedaço de papéis amassados.
Muros chineses
e preconceitos americanos,
brasileiros. Tanto faz.
Que abolissem todas as esquinas.
As portas. E as janelas. Que não trazem caos,
que não trazem céus, que não trazem tranças. Que não
cantam serestas,
que não compõem trovadores, que não
conquistam suicídios, que não matam traições.
Ora, as janelas são circuladoras de ar.
porque até o hálito divino
apodrece rápido. E só um escovão
pode. Só uma gravata bem amarrada pode.
Só um músculo no lugar pode.
Só um poema como este pode.